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Meu Pequeno Narciso

Sérgio AbreuPor Sérgio Abreu
30 de Junho, 2026
32 min de leitura
Pais e filho diante de um espelho que revela um caminho iluminado

Na mitologia grega, Narciso era um jovem, filho do deus Cefiso e da ninfa Liríope. Desde o seu nascimento, o rapaz evidenciava uma beleza única e, quando jovem, tornou-se alvo de muitas paixões; tanto homens quanto mulheres amavam Narciso por sua extrema beleza. Porém, junto com sua beleza, Narciso também possuía um orgulho enorme e, segundo uma das versões do mito, foi condenado a apaixonar-se pela própria imagem refletida na água. Incapaz de afastar-se de seu reflexo, Narciso definhou enquanto contemplava a si mesmo.

Narciso é o exemplo do homem que vive escravo do pecado do orgulho e amor-próprio. Agostinho chamaria esse pecado de incurvatus in se, o homem curvado a si mesmo. Ele não é apenas um comportamento errado, mas reflete uma desordem de amor, lançando o indivíduo à idolatria de si mesmo. Diferentemente do que o mundo propõe, o narcisismo não é apenas um problema psicológico, mas também espiritual e teológico.

O mito de Narciso pode nos ensinar algumas verdades sobre um fenômeno recorrente na criação de filhos na atualidade e que tem implicações diretas na formação espiritual, emocional e moral das próximas gerações. É cada vez mais comum vermos homens e mulheres orgulhosos de si mesmos, espelhando sua própria imagem em seus filhos sem levarem em consideração que isso aponta para sérios problemas no exercício da atribuição sagrada da paternidade, na construção emocional, social e psicológica dos filhos, bem como na construção da espiritualidade tanto dos pais quanto dos filhos.

Para refletirmos sobre isso, eu gostaria de chamar esse fenômeno de “Meu Pequeno Narciso”, pois os pais se encantam com a forma como os filhos replicam seus estilos, gostos, comportamentos e seus sonhos. Por outro lado, também é importante destacar como os pais impõem orgulhosamente suas expectativas sobre seus filhos para que estes sejam reflexos seus no mundo. Para tanto, gostaria de refletir sobre seis problemas que observo nesse fenômeno.

1. Um problema presente em todas as gerações

Antes de fazermos os apontamentos, quero dizer que o que estou chamando de fenômeno do "Meu Pequeno Narciso" não é uma condição apenas dessa geração; não é isso que estou afirmando.

Em todas as gerações podemos apontar esse espelhamento dos pais em seus filhos. Mesmo nas gerações passadas podemos ver aspectos desse fenômeno.

No passado, os pais tinham não apenas a expectativa de que seus filhos seguissem seus passos, mas, mais do que isso, eles tinham a responsabilidade de instruir seus filhos, tomando decisões que moldariam o futuro deles, fosse em uma profissão ou casamento, por exemplo.

Os pais exerciam autoridade definidora com o foco de conduzir seus filhos ao futuro.

Sabemos que esse modelo era carregado de falhas e, por isso, foi fortemente questionado pelas gerações mais recentes e abandonado em grande parte do mundo, especialmente no mundo ocidental, onde a liberdade dos filhos para a tomada de decisão sobre questões fundamentais acerca da construção do seu futuro se tornou um valor quase que absoluto e inquestionável, em muitos casos até mesmo eclipsando a autoridade e a sabedoria dos pais como orientadores dos filhos no processo formativo.

Você pode se perguntar: "Se esse fenômeno pode ser encontrado também em outras gerações, o que faz dele um ponto importante para nossa atenção hoje?"

Essa pergunta exige duas respostas.

Erros repetidos não se tornam virtudes

Primeiro, o fato de certos erros serem repetidos em uma geração e transmitidos para outra não os torna normais, aceitáveis ou menos graves, mesmo que venham com o rótulo de expressão cultural. Por isso, o fato de comportamentos e práticas se tornarem socialmente aceitáveis em determinado momento histórico ou por uma cultura não os torna menos prejudiciais. Esses erros devem ser identificados e expostos à luz das Escrituras Sagradas.

O que mudou foi a motivação

Em segundo lugar, quero apontar para uma diferença entre as gerações mais antigas e as mais modernas. Ela é essencial para identificarmos o risco para a construção do caráter individual e, consequentemente, para a saúde do núcleo familiar.

Nas gerações mais antigas, nós encontramos um conceito social e cultural formado a partir da autoridade dos pais na definição do futuro de seus filhos. A autoridade dos pais era fundamentada na responsabilidade deles no cumprimento do seu papel social e familiar.

Na maioria das vezes, as imposições paternas e familiares sobre os filhos em relação a comportamento, sonhos, trabalho, casamento e outras áreas da vida não estavam ligadas a uma carência emocional dos pais, mas a um senso de responsabilidade diante dos conceitos culturais e imposições sociais da época.

Com isso, não estou emitindo um juízo sobre o que é certo ou errado em relação ao modelo de construção familiar antigo, apenas apontando um fato cultural.

A diferença crucial entre as gerações mais antigas e as mais recentes está na motivação: a primeira era motivada pelo senso de responsabilidade juntamente com a pressão cultural e social; a segunda, por uma carência emocional dos pais, que tentam suprir esse vácuo existencial por meio da autoafirmação na vida dos filhos, alimentada pela exposição e pela validação social.

O primeiro modelo tinha como alvo o crescimento, o amadurecimento e o bem-estar do filho, além da manutenção e segurança patrimonial e familiar.

Isso não quer dizer que, em casos específicos, não encontrássemos essa projeção emocional dos pais nos filhos nas gerações passadas; estou apenas dizendo que, como regra geral, as imposições e expectativas estavam mais ligadas a fatores culturais de autoridade (muitas vezes abusivos) do que a fatores pessoais e emocionais.

As novas gerações, em nossa cultura contemporânea, intensificam algumas tendências antigas do coração humano, especialmente por meio da cultura da exposição e da validação social.

Em alguns segmentos da cultura contemporânea, o alvo deixa de ser prioritariamente o amadurecimento do filho, seu bem-estar e sua formação, tornando-se o suprimento emocional de egos paternos inflados e o preenchimento de uma carência emocional por meio da autoafirmação na vida e nas realizações do filho. É esse segundo fenômeno que estou chamando de "Meu Pequeno Narciso".

O problema central não está em amar os filhos, mas em amá-los de forma desordenada — transformando-os em reflexos do ego dos pais.

2. A desordem do amor

Uma questão fundamental que requer nossa atenção é a desordem do amor.

Nas Escrituras, a vida de fé verdadeira é nutrida por amor verdadeiro. Ele nasce do amor de Deus, o Criador, por nós, suas criaturas, e se manifesta na pessoa do Filho que se encarnou e, por amor, morreu na cruz para salvar pecadores e glorificar a Deus. Esse amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5.5) e nós, por meio dele, vivemos uma vida transformada, desfrutamos de uma esperança viva e temos a provisão divina para vivermos uma vida que glorifica seu nome. O amor cristão não é natural, é divino; não nasce em nós, é derramado pelo Espírito em nossos corações; não é egoísta, é altruísta.

Nas Escrituras, conforme as palavras de Jesus, somos chamados a amar a Deus; esse é o primeiro mandamento. O segundo, amar o próximo; desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. Não há espaço nas Escrituras para o narcisismo. Pelo contrário, o Narciso mitológico é uma expressão de tudo aquilo que se expressa nesse mundo como uma oposição a Deus e ao seu caráter santo e amoroso.

O resultado do amor de Deus por nós é uma capacitação espiritual concedida pelo Espírito Santo, que leva aquele que recebe o amor de Deus a encontrar satisfação nele e a refletir esse amor em seus relacionamentos.

Por isso Jesus disse que o amor seria o distintivo que nos faria conhecidos nesse mundo como seus discípulos (Jo 13.35). Essa marca destaca o cristão entre todos os demais povos da terra. Isso não significa que os demais povos não expressem amor; significa que na vida do cristão o amor está em uma ordem específica de valores determinada por Deus. Ordem essa que, após a queda e a entrada do pecado no mundo, foi desordenada no coração humano e só pode ser reordenada pela ação milagrosa da verdade do evangelho.

O ser humano incurvatus in se tem seu amor voltado para si mesmo. Todos os seus esforços estão voltados para buscar sua autossatisfação e sua felicidade. As novas gerações, mais do que qualquer outra antes delas, manifestam em suas relações intrafamiliares, especialmente entre pais e filhos, uma espécie de caricatura do amor, moldado pelo pecado, transformando os filhos apenas em instrumentos de autossatisfação e autoafirmação de pais que estão desesperados em busca de alegria. Essa desordem de amor manifestada nas relações entre pais e filhos só pode ser corrigida quando o poder do evangelho transforma o coração dos pais, esmagando o narciso que existe dentro deles, tornando Jesus o alvo primário do seu amor e a única fonte de alegria verdadeira para sua satisfação.

3. Quando os filhos se tornam instrumentos de status

Quando o amor está desordenado, outras coisas passam a assumir o imperativo no coração humano como fonte de alegria e satisfação. O olhar deixa de ser para fora de nós e para Deus e se volta imediatamente para dentro de nós e para nossos desejos. Tudo se transforma em oportunidades de nos sentirmos realizados e satisfeitos. Tornamo-nos oportunistas especializados em usar as pessoas para nossa autossatisfação. Vivemos como parasitas, alimentando-nos do próximo, tirando de cada experiência relacional fragmentos de alegria, satisfação e prazer momentâneos, tendo cada um deles apenas como uma oportunidade de autorrealização. Essa é a realidade do ser humano sem Deus, sem a redenção em Cristo e sem viver pelo evangelho.

No entanto, esse ser humano não quer apenas estar satisfeito explorando cada oportunidade; ele quer parecer satisfeito e realizado socialmente. Em nossa sociedade, cada vez mais marcada pelas aparências cuidadosamente produzidas para as redes sociais, o ser humano parece estar mais comprometido com a forma como ele se apresenta socialmente e virtualmente.

Os rótulos se tornaram tão importantes quanto — e, em alguns casos, até mais importantes do que — a essência. Às vezes, parecer ser feliz e atingir os padrões impostos pela cultura parece mais importante do que ser feliz de verdade. O status social é um bem de consumo, vendido e comprado no mercado das vaidades, e seu preço está cada vez mais valorizado no mundo sem Deus. O status tem a ver com aquilo que você deseja que as pessoas vejam em você; por isso, montamos nosso perfil segundo nosso gosto, estilizamos nossas fotos, comunicamos nossas experiências como se cada uma delas fosse melhor do que as anteriores. Tudo para parecermos felizes, mesmo tendo uma vida quebrada nesse mundo quebrado.

Nessa roda de futilidades, os filhos se tornam instrumentos de promoção do status virtual dos pais. Em uma geração que terceiriza a educação e formação dos filhos, os rápidos momentos de interação se tornam produtos de publicidade pessoal. "Vejam como meus filhos se vestem bem", "vejam como meus filhos se parecem comigo", "vejam como meus filhos são inteligentes", "vejam como meus filhos são educados", "vejam como meus filhos são belos", "vejam como meus filhos se destacam porque sabem outra língua, conhecem outras culturas, sabem informática, têm boa oratória, são fortes", etc.

Essas coisas em si não são erradas; faz parte da responsabilidade dos pais oferecer aos filhos todas as oportunidades possíveis de crescimento e amadurecimento. Assim como faz parte da paternidade tornar-se referencial para os filhos. Isso não apenas é bom, mas também é belo. O problema aqui está na motivação dos pais. A alegria dos pais muitas vezes não está no desenvolvimento dos filhos, mas na imagem pública de competência paterna que as realizações dos filhos parecem produzir. A desordem dos amores transforma os filhos em vitrines usadas pelos pais para elevar o próprio status social.

O lugar dos filhos segundo as Escrituras

A Palavra de Deus coloca os filhos em um lugar especial na vida dos pais:

  • São “herança do Senhor” (Sl 127.3), o que indica seu valor;
  • São como “flechas nas mãos do guerreiro” (Sl 127.4), imagem da responsabilidade dos pais de direcioná-los para o alvo certo;
  • São como “rebentos de oliveira” (Sl 128.3), sinal da bênção e da alegria que trazem à família;
  • Devem receber ensino atento e cotidiano no lar (Dt 6.6-7);
  • Devem ser criados “na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef 6.4), como discípulos de Jesus, não dos próprios pais;
  • Devem ser corrigidos com amor e no tempo certo (Pv 13.24), pois o verdadeiro amor está comprometido com seu amadurecimento.

Esses textos nos mostram como os filhos devem ser alvo do amor e da dedicação dos pais e não se tornarem apenas enfeites que elevam o status aparente deles. Criar filhos exige abnegação, serviço, zelo, dedicação e muito amor. Somente o evangelho pode reordenar nossos amores, colocando nossos filhos no lugar certo para que recebam o reflexo do amor de Cristo em nós e não se tornem apenas mais uma oportunidade de vanglória para os pais.

4. Paternidade bíblica versus paternidade secular

Filhos são pecadores, e assumir isso é doloroso para pais narcisistas. Sim, o quanto antes alinharmos nossa visão pessoal sobre nossos filhos com a perspectiva bíblica sobre a natureza humana, mais rápido conseguiremos fugir dessa correnteza cultural que tenta nos arrastar para uma relação narcisista com nossos filhos.

A paternidade secularizada está em contraste irreconciliável com a visão bíblica da criação de filhos. Sua base se fundamenta em pressupostos culturais, humanistas e valores pessoais, negando completamente a existência de Deus. Isso modela a criação dos filhos focalizando sua formação nas necessidades dos pais ou no cumprimento dos valores impostos pela cultura e sociedade.

4.1 A necessidade de aceitação dos pais

A primeira questão é a necessidade excessiva dos pais de serem aceitos pelos filhos.

Como resultado, a criação das crianças deixa de ter o propósito formativo para se tornar meramente uma relação de suprimento emocional.

Isso produz pais excessivamente focados em reproduzir nos filhos as próprias expectativas. Esses pais negam os defeitos e pecados das crianças e, a qualquer custo, evitam que elas passem por frustrações.

Mas não se engane: o fator motivador para tudo isso não é o bem-estar da criança, mas apenas a manutenção do status de "bom pai", pois qualquer aspecto de falha pode significar o fracasso dos pais e o que se deseja não é o desenvolvimento da criança, mas apenas evitar a própria frustração e o sentimento de fracasso.

Isso não significa que os pais não amem seus filhos, apenas afirma que os amores estão em desordem, isto é, eles, os pais, amam mais a si mesmos do que amam seus filhos, por isso necessitam, a qualquer custo, espelhar sua autoimagem neles, precisam igualmente evitar qualquer nível de reconhecimento de falha na criança ou na criação, além de impedirem qualquer nível de frustração para os filhos, pois isso pode dar a aparência de que fracassaram ou falharam em sua tarefa, manchando sua imagem e reputação.

4.2 A pressão dos padrões sociais

A segunda questão é a necessidade de se expressar socialmente de acordo com os padrões impostos pelo mundo à sua volta. Apresentar uma vida cuidadosamente editada para as redes sociais é fundamental para a manutenção de sua autoimagem.

Para isso, é necessário estar sempre avaliando as novidades que fazem dos pais homens e mulheres "modernos", "atualizados", e que respondem atentamente às constantes novidades do nosso tempo.

Eles vivem em busca de respostas para a pergunta: "O que preciso fazer para ser um bom pai?"

A cultura e a sociedade respondem com toda veemência, apropriando-se da alma dos pais e das crianças com uma série de imposições. Não importa quão absurdas ou antinaturais sejam: quanto mais extremas, mais curtidas e aplausos o mundo oferece. Nesse processo, ignora-se a desumanização das crianças e o adoecimento de uma geração, desde que a criança funcione como reflexo dos anseios, da imagem e da autorrealização dos pais.

Nessa busca, vale tudo:

  • apoiar a sensualização infantil;
  • transformar todos os desejos dos filhos em direitos;
  • aceitar a mudança de gênero e apoiar a troca de sexo;
  • concordar com a identificação como animais (therians);
  • vestir meninos com roupas de meninas e meninas com roupas de meninos;
  • deixar de corrigir o erro;
  • medicar a criança em vez de enfrentar os desgastes próprios da responsabilidade de educar;
  • terceirizar o ensino e o cuidado.

O objetivo passa a ser “ser feliz e deixar ser feliz” a qualquer custo.

O referencial da paternidade bíblica

A paternidade bíblica não é refém dos desejos, expectativas e culturas criadas por uma sociedade adoecida. Ela nasce primeiramente da revelação de Deus como nosso Pai. Isso quer dizer que a paternidade bíblica tem um único referencial: o próprio Deus Santo. Isso torna a paternidade bíblica centrada em Deus, responsável e propositiva.

Na perspectiva cristã, o objetivo é procurar o amadurecimento da criança de forma que nela seja formado o caráter de Cristo e que sua vida tenha um propósito para além de si mesma, mas esteja focalizada na glória do próprio Criador. Isso impede que tanto os pais quanto os filhos sejam tratados como o propósito último do desenvolvimento da pessoa humana, rompendo, assim, com o egocentrismo e o narcisismo.

Os filhos não são criados para a glória dos pais, mas para a glória de Deus; as crianças não são ensinadas a buscar a realização de suas vontades, mas a realização da vontade de Deus.

Nesse processo, é impossível não percebermos a constante frustração tanto de pais quanto dos filhos, que, por causa do pecado, tendem a buscar sua própria glória e satisfação. Porém, quem teme ao Senhor dedica-se a agradá-lo e a submeter-se à sua Palavra. Assim, pais e filhos amadurecem e são paulatinamente transformados pela graça de Deus em homens e mulheres dos quais este mundo não é digno.

Nesse ponto, surge um contraste irreconciliável: diferentemente do que propõe a paternidade secular, a frustração não é algo a ser evitado a qualquer custo, mas uma oportunidade de amadurecimento e transformação pela graça divina.

Pais cristãos sabem que seus filhos são pecadores, que necessitam de um Salvador, que precisam de perdão para seus pecados, que não são perfeitos; por isso, sabem que a salvação não consiste em formar neles a própria imagem. O único caminho para a salvação de filhos pecadores está na cruz de Cristo. A responsabilidade dos pais está em ensinar o caminho em que eles devem andar (Pv 22.6), usando a Palavra de Deus todos os dias com afinco e determinação como instrumento de formação (Dt 6.4-9); desta maneira, o caráter de Cristo vai sendo formado neles (Gl 4.19).

Na paternidade bíblica, o pequeno Narciso deixa de existir para o nascimento de um pequeno Cristo que deve ser formado ao longo de uma vida inteira para a glória de Deus, o nosso Pai.

5. A glória de Deus versus a glória dos pais

Aqui temos uma nova e importante questão que precisa ser abordada com a devida seriedade. Muitas vezes falamos sobre a glória de Deus, mas talvez não demos a importância que o próprio Deus dá à sua glória.

A glória de Deus é algo sério, a ponto de Ele exigir exclusividade de nossa parte no que diz respeito a oferecer ou receber glória. Quando oferecemos adoração a alguém ou alguma coisa, estamos glorificando aquilo e exaltando a posição de divindade. A mesma coisa acontece quando exigimos, desejamos ou acolhemos adoração de outras pessoas; a exaltação de nós mesmos, ou mesmo o desejo pela exaltação, manifesta nosso pecado de querermos ser deuses. Quando a glória de Deus é redirecionada para qualquer outra coisa que não seja Ele próprio, damos a isso o nome de idolatria.

“Eu sou o Senhor; este é o meu nome! Não darei minha glória a ninguém.”Isaías 42:8

Devemos levar seriamente algo em consideração: Deus não compartilha a sua glória com ninguém. Essa é uma declaração de soberania absoluta, que destaca a exclusividade e a grandiosidade divina. É um lembrete profundo de que a honra suprema pertence apenas ao Criador, sem que esse reconhecimento seja dividido com mais nada ou ninguém.

Glorificar o nome de Deus não significa torná-lo maior do que Ele é de fato. Isso seria impossível, mas simplesmente tem a ver com reconhecer, declarar e demonstrar a grandeza que Ele já possui. Deus não apenas exige exclusividade, Ele quer ser glorificado em todos os povos e em todas as culturas. A glória de Deus também diz respeito ao reconhecimento de sua grandeza entre os povos da terra. Como povo de Deus, somos chamados a oferecer adoração exclusiva e trabalho fiel para torná-lo conhecido a fim de que Ele receba a glória que lhe é devida de sua criação.

Não se engane, no entanto: Deus não precisa receber nossa glória para ser glorioso, e não devemos pensar por um momento sequer que, de alguma maneira, ao glorificá-lo estamos acrescentando glória ao seu estado de majestade. Deus é glorioso em si mesmo e isso é suficiente. Nós, entretanto, fomos criados para manifestarmos a sua glória e não estaremos completos nem satisfeitos até que estejamos plenamente comprometidos com esse propósito.

Você pode estar se perguntando: "Onde ele quer chegar com toda essa argumentação sobre a glória de Deus? Não estamos falando sobre pais e filhos?" Exatamente, a glória de Deus está profundamente relacionada com a tarefa da paternidade. Essa relação aparece tanto de forma positiva quanto negativa.

A paternidade e a missão

Positivamente, porque parte de nosso compromisso é fazer a glória de Deus conhecida entre os povos. Que grande responsabilidade e privilégio o Senhor nos concede: participar, como seu povo, do avanço de sua glória entre as nações e os povos, para a alegria deles. Essa responsabilidade e privilégio começam na relação entre pais e filhos. Nossos filhos são campos missionários onde precisamos avançar estrategicamente com o evangelho a fim de alcançar o coração deles, conduzindo-os a Cristo. Essa é uma tarefa que exige diligência e muita resiliência para os pais. É o compromisso de uma vida inteira, marcado pela aplicação da Palavra de Deus, dedicação à oração e exemplo de santidade. Tudo isso porque os pais desejam que seus filhos amem a pessoa de Cristo Jesus.

Quando os pais buscam a própria glória

Todavia, a glória de Deus também se relaciona com a paternidade de forma negativa, e isso está relacionado ao pecado do narcisismo. Pais gostam de ser amados por seus filhos e também de receber a glória e o reconhecimento quando seus filhos se destacam em algo.

É justamente nesse aspecto que muitos de nós acabamos negligenciando a seriedade sobre como Deus trata sua própria glória e acabamos esquecendo que Ele não a compartilha com ninguém.

Pais cristãos devem estar comprometidos em fazer seus filhos amarem mais a pessoa de Cristo do que a si mesmos; também devem trabalhar para que todos os destaques de seus filhos promovam a glória de Deus e não a sua própria glória. Quando nós, pais, caímos nesse erro de permitirmos que nossos filhos amem mais a nós ou que os destaques dos nossos filhos tragam mais glória e reconhecimento para nós do que para Deus, estamos cometendo idolatria. Esse é um grande fracasso na tarefa da paternidade.

Às vezes, assim como Narciso, que se apaixonou pela sua própria imagem refletida no lago, nós estamos tão apaixonados pela nossa imagem refletida em nossos filhos que não estamos percebendo o quão distantes estamos do evangelho e para quão longe dele estamos conduzindo o coração dos nossos filhos.

Precisamos nos comprometer com a glória de Deus.

É necessário compreender que nossa saúde espiritual depende do abandono do desejo de receber glória por meio da vida de nossos filhos. Devemos buscar que Deus receba a glória que lhe é devida e, ao mesmo tempo, comprometer-nos com a verdadeira alegria de nossos filhos, conduzindo-os ao Salvador. Somente quando eles amarem Cristo acima de todas as coisas — inclusive dos próprios pais — poderão encontrar alegria e satisfação neste mundo e no porvir.

Isso, de maneira alguma, deve servir de licença para que os filhos deixem de amar e honrar seus pais; apenas revela a necessidade de colocarmos nossos amores em sua devida ordem, como visto até aqui: Cristo Jesus deve estar em primeiro lugar no coração dos pais e no coração dos filhos.

6. Os frutos dessa desordem

Como dito anteriormente, pais cristãos precisam estar comprometidos com a glória de Deus e a alegria verdadeira de seus filhos. Essas duas proposições parecem ser autoexcludentes, mas não são. Muitas vezes pensamos que a glória de Deus e a alegria humana são opostas uma à outra, como se para agradar a Deus devêssemos viver em sofrimento, tristeza e dor; todavia, essa não é uma perspectiva bíblica. Apesar de todos nós experimentarmos momentos de muita angústia, e todas elas estarem debaixo do controle soberano de Deus, isso não aponta para um Deus sádico que tem prazer em gerar dor em sua criatura. Na verdade, essa visão é resultado de uma compreensão distorcida da espiritualidade cristã presente em determinados contextos históricos e não encontra amparo bíblico.

Pelo contrário, a glória de Deus e a alegria humana são perfeitamente complementares. Quanto mais o ser humano busca a glória de Deus, mais alegre ele será, e quanto mais alegre ele é em Deus, mais glória Deus está recebendo.

Essa verdade também pode ser aplicada na criação e formação dos filhos. Quanto mais o pai busca a glória de Deus, mais comprometido estará em apresentar Jesus Cristo aos seus filhos na esperança de que o Espírito Santo forme Cristo neles. A consequência desse árduo trabalho será um filho com uma consciência de vida formada a partir do evangelho.

Permita-me, no entanto, fazer uma consideração muito relevante neste ponto.

É importante entendermos que, embora um pai temente crie seu filho ensinando-lhe as verdades do evangelho, a simples assimilação dos valores morais, relacionais e éticos do cristianismo não pode ser confundida na vida de nossos filhos com a salvação. Não é a vivência dos valores morais da fé cristã que salva nossos filhos, mas Jesus Cristo.

Esse é um ponto importante, porque os pais correm o risco de ensinar muito mais o moralismo, como se fosse uma expressão do evangelho, do que o próprio evangelho, que apresenta o ser humano como carente de um Salvador, um substituto, e o único caminho para a salvação: Jesus Cristo e sua obra vicária na cruz.

Portanto, pai e mãe, não confunda o seu papel: como tutor, você deve conduzir seu filho a Cristo, com temor e oração, para que ele seja acolhido pela graça de Deus.

Todavia, não tente assumir o papel de Salvador na vida deles como se seu ensino ou sua habilidade de criá-lo pudesse salvá-lo. Não é! Ele precisa de um Salvador e um substituto que Deus proveu perfeitamente no alto da cruz do Calvário.

Quando os pais esquecem seu verdadeiro papel, que é conduzir seus filhos ao conhecimento de Jesus, ou mesmo se iludem, mesmo que inconscientemente, acreditando que eles de alguma forma vão salvar seus filhos, o resultado pode ser desastroso.

Se Cristo não está sendo formado em nossos filhos, nós estamos.

Se nós, pais, estamos assumindo o papel de salvadores de nossos filhos, certamente estaremos comprometidos em formar nossa imagem e nossa semelhança neles. Eles se tornam reflexos apaixonantes de nós mesmos, por quem ficamos deslumbrados por certo tempo, até que o pior de nós, nossos pecados, nossas debilidades, nossos fracassos, passam a ser refletidos neles. Aqui está o terrível resultado: quando fazemos de nossos filhos pequenos Narcisos, apenas reflexos pálidos de nós mesmos, falhamos em nossa tarefa bíblica de paternidade, tudo isso porque ficamos deslumbrados demais com nossa própria imagem refletida neles.

É nesse ponto que os pais precisam de humildade para se arrepender do próprio egocentrismo e admitir que precisam mudar. Precisam amar a Cristo mais do que a si mesmos e aplicar os valores bíblicos à formação dos filhos, rejeitando conceitos culturais que tentam se imiscuir e transformá-los em protótipos de um mundo caído.

Apesar de esse chamado ao arrependimento estar presente nas Escrituras, vemos pais — até mesmo cristãos — fugindo de suas responsabilidades e agarrando-se ao seu ego inflado de pecados ocultos. O mundo é hábil em oferecer fuga para pessoas que não desejam se arrepender e que, em vez disso, precisam de um escape emocional e psicológico.

Responsabilidade espiritual e cuidado clínico

As clínicas terapêuticas, os consultórios psicológicos e as clínicas psiquiátricas estão superlotadas de crianças diagnosticadas com os mais variados transtornos. No entanto, acredito que alguns casos não sejam apenas questões de ordem clínica e possam estar relacionados a efeitos negativos associados ao fenômeno do "Meu Pequeno Narciso".

Entre os possíveis efeitos que associo a esse fenômeno, estão:

  • filhos sem limites ou marcados pelo egocentrismo dos pais;
  • crianças afetadas pela superproteção;
  • conflitos de identidade relacionados à ausência de valores e princípios morais consistentes no lar;
  • crises de ansiedade agravadas pela instabilidade sentimental, relacional e ética dos pais;
  • sofrimento intenso diante de expectativas paternas excessivas, incluindo pensamentos suicidas.

Tudo isso, e muitas outras crises, podem ser resultado dessa síndrome que avança silenciosamente devastando famílias e indivíduos, marcando nossa época e modelando o futuro da humanidade. Entendo que algumas dessas crises poderiam ser evitadas por pais verdadeiramente comprometidos com a Palavra de Deus.

Alguns sofrimentos são agravados por padrões familiares pecaminosos, mas nem todo sofrimento psicológico pode ser reduzido a isso.

Minha intenção não é questionar nem criticar o recurso a terapias ou o acompanhamento de psiquiatras e psicólogos no tratamento de doenças e transtornos que exijam esse cuidado. Pelo contrário, creio que, em sua eterna graça, Deus deu ao homem uma série de conhecimentos variados para ajudar a humanidade a resolver questões técnicas e clínicas; estou apenas dizendo que muitos pais preferem esconder-se atrás de diagnósticos e medicações como fuga para não enfrentar a realidade da maneira deficiente como têm formado os filhos à sua própria imagem e conforme a sua semelhança.

Minha intenção é levá-lo a refletir que às vezes alguns traços comportamentais dos filhos, crises emocionais ou dificuldades morais, podem estar relacionados ao abandono da prática da paternidade bíblica e de uma espiritualidade familiar genuinamente fundamentada no evangelho.

Conclusão: arrependimento e misericórdia

Se você percebeu suas falhas

Talvez você, assim como eu, se perceba falhando em algum aspecto desse breve texto. Isso é bom — não se assuste —, pois reconhecer a falha significa ter a oportunidade de se arrepender e descobrir a doce misericórdia do seu Salvador nessa área de sua vida.

Se você pensa que é tarde demais

Talvez você tenha percebido falhas cometidas ao longo da construção de sua relação com seu filho, porém você acredita que o tempo já passou, que você perdeu o momento para influenciar seu filho nos valores do evangelho. Eu gostaria de dizer que isso não é verdade. O arrependimento é um poderoso instrumento nas mãos de um Deus soberano. Lembre-se: você não é o Salvador de seu filho, por isso não há momento mais oportuno para começar a apontar para Jesus na relação de vocês. Faça isso agora mesmo e sempre conte com a doce misericórdia de Deus.

Se você não percebeu nenhuma falha

Talvez você esteja chegando ao fim desse texto e não conseguiu ver nenhuma falha em sua vida ou necessidade de mudança e aprofundamento em sua relação com seu filho. Eu gostaria de sugerir que você retomasse a leitura, colocasse diante de Deus seu coração em profunda devoção e, para seu bem, refletisse piedosamente sobre o tema novamente, pois o risco de você ser um dos piores tipos de narcisista é muito grande.

Que Deus abençoe nossas famílias e nossos filhos!

A Deus toda glória.

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Sérgio Abreu
Autor

Sérgio Abreu

Autor do texto original “Meu Pequeno Narciso”, sobre paternidade, coração, idolatria e formação de futuras gerações.

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